porquinho. Meus amigos eu judiava tanto com esse porquinho. Eu jogava água quente em cima dele. Eu metia a cabeça dele dentro do tanque onde mãe batia roupa. Eu amarrava
os pés dele e pendurava na mangueira prá ficar montado em cima dele me balançando. Eu fiz tanta maldade com esse porquinho que um dia, depois de tanta judiação, ele morreu.Quando minha mãe se deparou com aquele porquinho, que ela criava com tanta estimação, morto, teve tanto desgosto, que me rogou uma praga. E praga de mãe é coisa séria meus amigos.Minha mãe se ajoelhou no meio da rua, ao meio dia em ponto. E soltou o verbo de lá prá cá: Infeliz, o espírito desse porco vai te perseguir por toda tua vida, amaldiçoado.Vocês entenderam? Essa voz que está aqui me chamando de mentiroso é justamente o ESPÍRITO DO PORCO que eu matei. Vejam como praga de mãe é coisa séria. Ele não aparece porque é só o ESPÍRITO DO PORCO me perseguindo... Volta pró inferno e me deixa trabalhar em paz amaldiçoado”. Depois dessa, ZÉ PELA-PAU ficou bem caladinho. Passou por mim e disse: “Vamos embora João Dino”. Eu recordo essa história passando um filme aqui na minha cabeça. ZÉ PELA-PAU e ANSELMO são de saudosa memória. Mas saibam os Senhores que "ESPÍRITO DE PORCO" todos nós temos em nossas vidas. Anselmo, um humilde camelô, tinha. Eu tenho. Você tem... basta fechar os olhos para ver. O Governador do Estado do Ceará, discursando aqui no Crato disse que também tem espíritos de porco que lhe perseguem. Vixe Maria!
Do livro: João Dino, Histórias, Estórias, Crônicas e "causos". De João Dino
