No Brasil e, em especial, no Sertão nordestino, a democracia não se sustenta apenas nas urnas ou nos gabinetes. Ela se fortalece, sobretudo, nas ruas, nas praças, nos terreiros, nos grupos culturais, nas associações de bairro, nas ONGs e nas tantas formas de organização popular que dão voz a quem, historicamente, foi silenciado.
No campo da cultura, a importância dessas organizações é ainda mais visível. A política cultural brasileira, sobretudo depois de experiências como o programa Cultura Viva e seus Pontos de Cultura, passou a reconhecer que a cultura não nasce em escritórios refrigerados, mas no chão da comunidade: na ciranda, no coco, no repente, no reisado, nas quadrilhas, nas bandas de pífanos, nos terreiros de matriz africana, nos grupos de teatro de rua, nas escolas de samba e maracatus. Organizações culturais de base – muitas vezes ONGs e coletivos comunitários – assumem o papel de guardiãs dessas expressões, ao mesmo tempo em que as reinventam, renovam e projetam para novas gerações.
Exemplos se multiplicam pelo país: projetos que oferecem oficinas de dança, música, teatro, esportes e educação popular para crianças, jovens, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade, transformando o acesso à cultura em ferramenta de inclusão social e formação cidadã. Cada auto de Natal, cada espetáculo de rua, cada festival de cultura popular, cada sarau no bairro é muito mais do que entretenimento: é um ato político no melhor sentido da palavra, pois afirma identidades, fortalece vínculos comunitários e desafia desigualdades.
Mas não basta que essas organizações existam: é preciso que a participação cidadã, de fato, as atravesse. Democracia participativa não é um slogan; é um processo que exige escuta, debate, conflito e construção coletiva. Conselhos de políticas culturais, conferências, audiências públicas e fóruns de debate são espaços essenciais para que a população influencie as prioridades do orçamento, a escolha de projetos a serem apoiados, o desenho de leis e programas. Quando o povo se organiza e se engaja na vida pública, aumentam a transparência, o controle social, a qualidade do gasto público e a confiança nas instituições democráticas. No campo da cultura, isso significa mais acesso, mais diversidade e mais presença de grupos historicamente marginalizados – povos indígenas, quilombolas, populações periféricas, mulheres, juventudes, comunidades LGBTQIA+, entre outros.
O ABC do Sertão nasce – e se fortalece – nesse contexto: como um espaço de informação, reflexão e, esperamos, mobilização. Ao dar visibilidade às experiências das organizações sociais, aos grupos de cultura popular e às práticas de participação cidadã, este site se coloca ao lado de quem constrói, no dia a dia, uma democracia mais profunda, mais plural e mais enraizada na realidade sertaneja.
Mais do que noticiar, queremos contribuir para uma cultura política em que cada pessoa se reconheça não apenas como “espectadora de notícias”, mas como sujeito da própria história. Porque, em última instância, a pergunta que precisa nos guiar é simples: que Sertão queremos legar às próximas gerações – um território de resignação ou um território de direitos, cultura viva e cidadania ativa?
Por: Edilson Fernandes